| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 |
Análise existencial e biográfica - I
o.o
Quarta-feira da semana passada, 11/04. Saí da aula e rapidamente fui comer um sanduíche para poder assistir a um filme. Pouco depois, tomando um refrigerante fui andando em direção à biblioteca, onde veria “O encouraçado Potemkin” – mas não é do filme que falarei. No caminho passei em frente a uma livraria e parei para dar uma olhada. Vi um livro do Fernando Pessoa. Peguei para ler a parte de trás. Nem olhei o preço, comprei o livro imediatamente. Transcrevo um trecho para que vocês entendam o porquê:
"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
'Navegar é preciso, viver não é preciso'.
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para casar com o que sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo."
Eis aí o meu superego.
Pessoa faz com que eu não me sinta sozinho no mundo. Durante a adolescência e em meio a todos os pensamentos que isso envolve, comecei a perceber que o ideal de felicidade que eu observava universalmente parecia, no mínimo, muito pobre. Nunca consegui acreditar nele. Mais: acho que a conseqüência de acreditar nesse absurdo – e pensar sobre isso - é o suicídio imediato. Quanto a isso não há problema porque os que adotam este sentido para a vida geralmente não são lá muito dados à reflexão. Esta é a modesta e singela lógica que doze anos de existência foram suficientes para demonstrar:
1- O ideal ou sentido para a vida é a felicidade.
2- A vida mais “feliz” do mundo envolve, sempre, sofrimentos. Esses são inerentes à existência consciente por serem conseqüências das necessidades e desejos.
3- A forma de evitar o sofrimento é acabar com a vida. A inexistência de consciência seria a efetivação da utopia “felicidade”.
Eu sei que haverá inúmeras, infinitas objeções. Principalmente quanto a conceitos. Cada um tem sua melhor definição de felicidade... Isso é mero esboço de um garoto. O tema poderia ser objeto de um doutorado... Então sejam leitores bonzinhos, poupem-nos pelo menos 100 páginas e aceitem a idéia geral com bom senso (não gosto dessa palavra...).
Como disse, eu nunca aceitei a primeira premissa. O que eu constatava – e ainda constato – é que parece não existir qualquer sentido para a vida. O problema na época era acreditar que a vida precisa de um sentido. E aí está um grande fator da minha depressão e vontade suicida entre os 12 e 13 anos. É o preço que se paga por conseguir pensar, mas não conseguir fazê-lo suficiente, ou melhor, não ter maturidade para tal.
- A continuar -
Escrito ao pôr-do-sol mineiro
Hoje ao ver o sol se pôr
Sentado à janela dum quarto de hóspedes
Sozinho, como de costume, encantei-me.
Algo, porém, foi diferente.
Senti com tamanha intensidade
A indiferença celeste.
Assustei-me.
Vi os homens como loucos
Correndo em sua eterna ânsia
Os animais matando para viver
Lutando para não morrer
O mundo era dor e sofrimento
Mas só a beleza era visível
Luz e gases harmonizados na beleza do caos
Sinfonia silenciosa, serena, intocável.
E as vidas ignoravam,
Como de costume,
O banquete sensorial diário
E conversavam as conversas de sempre
Enquanto ocorria o fenômeno de sempre
Mas que cada dia é diferente.
Eu, extasiado como de costume, suspirei.
A poesia veio impor-se, como de costume, à minha vontade.
Mal acabara de escrever, chorei.
A existência prosseguia, totalmente.
E mais um sol fora engolido pelo anoitecer.
Quantos mais hei de conhecer?
(vk - 06/04/07 - 18h32min)

A foto não é em MG. Foi na UnB, em 2005. Mas mostra crepúsculo e pessoas, portanto, serve.
Ainda não há glória nem imortalidade, mas vontade.
Já tiveram vontade de "agilizar" a vida e fazê-la valer a pena o quanto antes? De passar logo por tudo que tem que ser vivido, feito e dito e já poder olhar para trás e simplesmente analisar? Ah...
Conhecem Robinson Crusoé? Não dá vontade de fazer algo parecido? Simplesmente sumir da vista de todos e, com a roupa do corpo, pegar um navio e sair pelo mundo. Mas... abdicar de todos os confortos, da estabilidade, da segurança, arriscar morrer e passar fome... vale a pena? Ora, e por que vocês acham que a história de Crusoé é interessante? Justamente porque não vale a pena para a maioria das pessoas. A maior parte de nós vive e - caso tudo corra bem - pretende continuar vivendo a vida medíocre de estabilidade e segurança. Aí pegamos essa literatura, invejamos esses personagens, suspiramos, fechamos o livro, e voltamos a lutar pelo status quo. Mas o desejo continua, a inquietação não cessa! Droga!
E se eu fizer isso e me arrepender?
Essa pergunta merece atenção. Será que dá para viver dando importância a esses nossos julgamentos feitos a cada instante? As noções de bom e de ruim mudam ao longo da vida. Aonde chegaremos dessa forma? A idéia é encontrar um momento de suprema sobriedade, um instante na vida em que seja possível ponderar prós e contras independentemente das possíveis mudanças vindouras. Neste momento poderíamos tomar decisões para o futuro que seriam boas no fim das contas - mesmo se nesse futuro sejamos pessoas arrependidas, pouco importaria esse arrependimento. Enquanto estava isolado na ilha, vislumbrando a própria morte, Crusoé se arrependeu. Praguejou contra a própria ganância e desejou não ter feito o que fez. Ficou nostálgico. Mas o que importava agora esse julgamento individual tão parcial? A grande tragédia seria ele não ter chegado ali por entrever esse momento de arrependimento. Isso é que realmente o tornaria um sujeito frustrado pelo resto da vida. Tal decisão por antecipação de arrependimento o privaria da sensação de que valeu a pena o que fez antes de morrer. Imaginem envelhecer com a sensação de que toda a monotonia e segurança não valeram realmente a pena e querer voltar ao passado? Que desgraça... Isso pode levar ao suicídio geriátrico.
Mas Crusoé é um personagem fictício tão distante da realidade...
Os senhores devem saber que é uma ficção com base real, certo? Mas concordo que a ficção exagerou bastante. Todavia, meu argumento mantém-se. Houve tantas vidas difíceis ou sofridas - e às vezes nem tanto - que eu gostaria de ter tido... Procurem saber sobre o grande artista Meegeren. Falsificando obras de Vermeer, desafiou e humilhou meio mundo. Tanto nazis quanto aliados. E claro, os críticos! Mas eu acho que a vida de Gauguin é a que mais combina com o que estamos falando. Em 1883 o bem-sucedido investidor da Bolsa de Valores largou o emprego e entregou sua vida às artes plásticas. Caiu na pobreza. Perdeu a mulher. Contraiu doenças. Viajou, viajou, pintou, pintou, tentou lutar, tentou morrer; foi preso, tentou se defender. Morreu.
Uma desgraça? A desgraça, a verdadeira tragédia para ele e para o mundo seria a manutenção da sua vida "feliz" como pintor de fim de semana. E cá estou eu escrevendo num blog enquanto poderia estar escrevendo páginas fantásticas para a história. E aí estão vocês lendo meus anseios enquanto ainda não tenho uma grande biografia. E lá vamos nós, depois, chorar a fugacidade da vida.
A quem possa interessar:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Robinson_Crusoe
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u69911.shtml (Gauguin)
http://essentialvermeer.20m.com/misc/van_meegeren.htm
Nênia à vida
Bebamos! Bebamos, meus amigos!
Que esta noite seja a mais intensa
A mais inesquecível
A mais absurda desta existência miserável!
E, caso amanhã, a fugaz chama insista em luzir,
Não exitemos novamente em nos reunir.
E cantar, e dançar, e ver o mundo rodar!
Porque o mundo estático é uma morte.
É o inferno. É o tédio.
Já que A morte é possivelmente a realização da utopia.
Do sono sem sonhos. Sem desgosto nem alegria.
Não tenho dúvidas, meus amigos,
De que invejo mais as pedras do que amo a vida.
A consciência é a fonte do prazer
E traz o sofrimento na mesma medida.
A sua inexistência é preferível a qualquer fortuna,
Qualquer felicidade, qualquer qualidade.
No entanto, não chorem!
Pois menos a pena ainda valeria esta vida!
Saudemos a morte, mas que seja tardia!
Bebamos à fortuna, ao prazer, a nós!
A existência é desagradável, sim.
Esperemos que seja única
E gozemos desta ante-sala da liberdade
Fazendo-a um rosal de força e de vontade.
(vk - 02/04/07 - 00:08)
(Continuo extremamente incomodado com as limitações do título ¬¬)