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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2007

26.07.07

Restaurante

Degustar a vida.
Foi uma das poucas coisas
simples e óbvias que se tem a aprender
e que levei tanto tempo.

Mas agora nada mais tem sentido
Só sabor.

E saboreio a música,
quando há música.
E o silêncio,
quando raro tenho tal privilégio.

Degusto o frio, atento a cada sensação.
Sinto lentamente cada mensagem do meu corpo.

Passo meus dias como em um grande restaurante imperfeito
Ao qual jamais retornarei.
Aproveito o melhor que puder me oferecer
E memorizo também seus defeitos
Para depois narrar a algum amigo
Algum desses que vem sentar-se ao meu lado
E depois vai-se, deixando mais lembranças.

Por que desejaria ir agora
Se ainda nem veio a sobremesa
E eu pretendo sair sem pagar?

vk  - 25/07/07
  • criado por  entimema criado por entimema
  • Postado em 01:25:40

24.07.07

Eu deveria estar estudando, mas...

24/07/07 - 16:16 - vk

Estou numa sala de estudos do obcursos SIG. A sala é enorme e está lotada de pessoas que, como eu, estão estudando para concursos públicos. Eu nunca vi pessoas estudarem algum livro sagrado com a mesma devoção. Claro que essas pessoas devem existir. Há sempre loucos em todos os lugares. Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não leva a sério toda essa história de vida após a morte, eternidade, evolução espiritual seja lá o que for. Se realmente dessem importância às suas crenças - e tenho certeza que estou cercado de crédulos - suas vidas seriam inteiramente voltadas ao espiritual, à próxima vida ou qualquer dessas idéias sobrenaturais. Mas não. Estão aqui, como eu, dando tudo de si pelos resultados que esperam encontrar nesta vida - de preferência, o mais breve possível. Sim, porque a vida é curta e os resultados não podem esperar tanto. Sabe-se disto por um lado, por outro, vive-se como se a vida fosse infinita. Sim, pois se soubessem que a morte os espera dentro dos próximos seis meses, viveriam de modo diferente. Passariam, talvez, a dar mais valor às suas crenças. Mas as crenças não deixam de existir. Não se deve menosprezá-las pelo fato de não atuarem o tempo inteiro. Nem é desejável que seja assim. São artifícios psicológicos que funcionam muito bem em momentos específicos: dúvidas sobre a vida, aproximação da morte e justificação do sofrimento são os mais óbvios. A sanidade consiste justamente em limitá-las a estas ocasiões em que são convenientes. Apesar de terem aparência generalista em seus enunciados globais sobre a vida, a conduta e a morte, na prática são restritas e dividem espaço com outras crenças e preceitos morais na vida de cada ser humano. É saudável que assim seja. Pode-se, talvez, idealizar com alguma dificuldade o que seria uma pessoa inteiramente coerente com suas convicções. Uma pessoa totalmente não contraditória a ponto de não haver em sua mente quaisquer crenças divergentes nem em sua vida qualquer ação que vá de encontro a elas. Esse monstro bizarro daria uma ótima história de ficção. E se por acaso você lembrou de exemplos reais de tal coerência, recomendo pensar com mais parcimônia.
A sociedade pós-moderna com sua relativização das crenças tem também suas vantagens. Não se trata necessariamente de suprimir crenças - e não é o que tem acontecido. A meu ver, é um grande passo no autoconhecimento humano que, negando o caráter absoluto das crenças, tira boa parte de sua importância, ou melhor seria dizer, arrogância. Percebe-se que crenças e verdades são coisas distintas. Fica então muito mais fácil transitar entre as várias crenças que a cultura oferece para agradar o indivíduo. Depois de tantos séculos em busca da Verdade e de tantas certezas seguidas de decepções (leia-se genocídios) a humanidade começou a amadurecer. Deixou em segundo plano a busca pelo absoluto transcendente e resolveu tirar melhor proveito das diferenças em vez de tentar uniformizá-las. Aceita-se o outro e suas crenças, afinal, são apenas crenças, tais como as minhas. E tais como as minhas, as dele o fazem bem. Aí não há como falar na melhor estética, na melhor arte, na melhor moral, na melhor religião. O indivíduo sabe, digo, decide qual a melhor para ele. É claro que não estou descrevendo a realidade, pois estamos ainda bem longe de sermos assim. Mas ao menos essa parece ser uma boa idéia do que seria o nosso "superego social" contemporâneo - e isso já é muito bom.
  • criado por  entimema criado por entimema
  • Postado em 19:18:05

19.07.07

Eu, as pedras, o mar e eu.

A minha força se impõe e insiste. Os dias passam e a sua chama queima toda a decadência. As raízes do poder fincam-se ao solo e tudo sugam. Os limites vão ao infinito buscar mais limites. Como um piano ao sol, tocado de pé, até a exaustão. O mar ruge e espanca, mas as pedras resistem, e as pedras não sentem dor, e as pedras não choram. E o mar vai, e o mar volta, e as pedras ficam. O tolo mar... Amante da lua, segue-a em sua inconstância. E as pedras inertes existem na imobilidade e este é todo o sentido de sua existência - se é que há algum sentido na existência. O fogo da mudança que cria e destrói é privilégio de almas imperfeitas como a minha. Aonde irão as pedras? Às pedras nada falta. Eu amo a escassez, a imperfeição, a necessidade, mas também - e principalmente - o controle. Enoja-me o mar, que segue a lua, que é arrastado pelo vento, que inveja as pedras contra as quais se volta. Observo o mar, amo as pedras, degusto o vento e até sonho com a lua. Mas abandono a todos e invento os meus caminhos.

(19/07/07)
  • criado por  entimema criado por entimema
  • Postado em 13:45:11