24.07.07
Eu deveria estar estudando, mas...
24/07/07 - 16:16 - vk
Estou numa sala de estudos do obcursos SIG. A sala é enorme e está lotada de pessoas que, como eu, estão estudando para concursos públicos. Eu nunca vi pessoas estudarem algum livro sagrado com a mesma devoção. Claro que essas pessoas devem existir. Há sempre loucos em todos os lugares. Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não leva a sério toda essa história de vida após a morte, eternidade, evolução espiritual seja lá o que for. Se realmente dessem importância às suas crenças - e tenho certeza que estou cercado de crédulos - suas vidas seriam inteiramente voltadas ao espiritual, à próxima vida ou qualquer dessas idéias sobrenaturais. Mas não. Estão aqui, como eu, dando tudo de si pelos resultados que esperam encontrar nesta vida - de preferência, o mais breve possível. Sim, porque a vida é curta e os resultados não podem esperar tanto. Sabe-se disto por um lado, por outro, vive-se como se a vida fosse infinita. Sim, pois se soubessem que a morte os espera dentro dos próximos seis meses, viveriam de modo diferente. Passariam, talvez, a dar mais valor às suas crenças. Mas as crenças não deixam de existir. Não se deve menosprezá-las pelo fato de não atuarem o tempo inteiro. Nem é desejável que seja assim. São artifícios psicológicos que funcionam muito bem em momentos específicos: dúvidas sobre a vida, aproximação da morte e justificação do sofrimento são os mais óbvios. A sanidade consiste justamente em limitá-las a estas ocasiões em que são convenientes. Apesar de terem aparência generalista em seus enunciados globais sobre a vida, a conduta e a morte, na prática são restritas e dividem espaço com outras crenças e preceitos morais na vida de cada ser humano. É saudável que assim seja. Pode-se, talvez, idealizar com alguma dificuldade o que seria uma pessoa inteiramente coerente com suas convicções. Uma pessoa totalmente não contraditória a ponto de não haver em sua mente quaisquer crenças divergentes nem em sua vida qualquer ação que vá de encontro a elas. Esse monstro bizarro daria uma ótima história de ficção. E se por acaso você lembrou de exemplos reais de tal coerência, recomendo pensar com mais parcimônia.
A sociedade pós-moderna com sua relativização das crenças tem também suas vantagens. Não se trata necessariamente de suprimir crenças - e não é o que tem acontecido. A meu ver, é um grande passo no autoconhecimento humano que, negando o caráter absoluto das crenças, tira boa parte de sua importância, ou melhor seria dizer, arrogância. Percebe-se que crenças e verdades são coisas distintas. Fica então muito mais fácil transitar entre as várias crenças que a cultura oferece para agradar o indivíduo. Depois de tantos séculos em busca da Verdade e de tantas certezas seguidas de decepções (leia-se genocídios) a humanidade começou a amadurecer. Deixou em segundo plano a busca pelo absoluto transcendente e resolveu tirar melhor proveito das diferenças em vez de tentar uniformizá-las. Aceita-se o outro e suas crenças, afinal, são apenas crenças, tais como as minhas. E tais como as minhas, as dele o fazem bem. Aí não há como falar na melhor estética, na melhor arte, na melhor moral, na melhor religião. O indivíduo sabe, digo, decide qual a melhor para ele. É claro que não estou descrevendo a realidade, pois estamos ainda bem longe de sermos assim. Mas ao menos essa parece ser uma boa idéia do que seria o nosso "superego social" contemporâneo - e isso já é muito bom.
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criado por entimema
19:18:05